sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PRODUÇÃO DO GÊNERO TEXTUAL CRÔNICA


CRÔNICA -  Atualmente, é um gênero literário que explora qualquer assunto, principalmente os temas do cotidiano. Geralmente escritas para serem publicadas em jornais e revistas — que, mais tarde, podem ou não ser reunidas em livro — a crônica se caracteriza pelo tom humorístico ou crítico.
(Enciclopédia Encarta 2000 - Microsoft®)

Saiba mais: http://www.significados.com.br/cronica/

As crônicas aqui postadas foram motivadas pela Sequência de eventos retirada de LAGE, Nilson. Estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 2006. p. 21-22

Com esta sequência é possível trabalhar outros gêneros textuais assim como : a Notícia, a Crônica, o Relato,uma Conversa ao Telefone,etc. É sabido que o Lócus define a estrutura dos gêneros,logo cada situação comunicativa terá suas particularidades dentro do contexto de produção.


Estou de férias!
Acordou de súbito, olhou no relógio e já era um pouco tarde, a rotina da madrugada tinha sido estressante, três corpos pra liberar e uma gritaria histérica na porta do IML, ele que habitualmente convivia com os mortos, não acreditava que o movimento endoidecido dos parentes mudasse em alguma coisa o trânsito natural da vida, essas atitudes por muitas vezes tumultuavam o trabalho do doutor Márcio, dormia pouco, seu corpo o carregava, foi até ao banheiro, escovou os dentes, pensou seriamente em tirar umas férias.
Olhou-se no espelho e viu as olheiras que marcavam a rotina de sono mal dormido, precisava mesmo de um merecido descanso.
_ Bom dia, querida!
_ Bom dia, amor. Que horas você chegou?
_ Quatro horas, e... estou pensando seriamente em ficar um mês em casa, passear um pouco, arejar a cabeça.
_ É bom mesmo... olhe pra você.... está parecendo um... Zumbi, até que enfim pensou algo certo.... as crianças entrarão em férias dia primeiro, ficaremos o mês de julho juntos.
_Não aguento mais, eita cidade pra morrer gente todos os dias. Já são quatro anos de trabalho ininterruptos. O pior de tudo é que não tem profissionais suficientes, sucatearam todos os setores, nem folga consigo tirar. Tomou o último gole de café.
Levantou-se, foi até ao quarto das crianças, beijou-as e por um momento ficou ali olhando, como o Pedrinho crescera, Maria estava com os cabelos longos, gordinha... o tempo passara. Saiu dali decidido .Tiraria férias,com certeza,precisava cuidar dos vivos,o além que tomasse conta dos mortos ,era a vez da família dele ,era a sua vez!
Ao fechar a porta do quarto das crianças, ouviu um baque no chão, abriu a porta novamente, pensou que um dos filhos tivesse caído da cama. Estava tudo normal. “será que estou ouvindo coisas?”. A campainha tocou em seguida.
_Deixe que eu atendo, querida.
Olhou pelo olho mágico e não viu ninguém, deveria ser algum desocupado que gosta de atormentar a vida alheia. Despediu-se da esposa e quando abriu a porta, ouviu um grito ensurdecedor da esposa.
_AHHHHHHHHHHHH, meu Deus, o que é isso?
_Olhou ao entorno, não havia ninguém. Estava ali, aos seus pés, um homem de terno, cabelos desaninhados, só de meia. Estava de bruços, virou-lhe. Ao virar ,a ilustre encomenda,percebera que estava gélido,não havia nele sequer um folego de vida. Olhou no bolso do paletó havia um bilhete:
_ Tome. Esse morto é seu, da próxima vez trabalhe melhor!
Olhou novamente o morto e notou que era um dos corpos que havia liberado na madrugada. Ligou para a polícia e explicou o acontecido. Os policiais chegaram e o rabecão que carregava os mortos também. Partiram todos ao IML.
No caminho muitas indagações, se perguntava como deixara isso acontecer? Como descobriram onde morava? Começou a ficar preocupado, pois certamente estava a lidar com pessoas impulsivas que nem sequer tiveram consideração pelo morto, o jogaram ali na soleira da porta, atitude totalmente desnecessária.
Chegando lá, tamanha confusão, um caixão vazio, envolta dele os familiares gritavam    “queremos o Tobias, queremos o Tobias”. Os  repórteres a postos instigava a petição de justiça.
_ Justiçaaaaaaa...justiçaaaaaaaa......
_ Fez isso porque somos pobres, queria ver se fosse parente dele.
_Espero que não tenham enterrado meu irmão. Eu mato, eu mato!
_Incompetenteeeeeeee, incompetenteeeeee!
Doutor Márcio com muito custo conseguiu entrar no IML, os gritos ecoavam em sua cabeça. Graças a Deus outros dois mortos ali estavam. Não sabia por que cargas d’água havia feito à troca.
_Por favor, senhor Rosalvo, é este o seu irmão?
_Sim, é este.
Depois das muitas desculpas e explicações, o mal entendido resolvera-se. Foi até a sala do chefe, não havia ninguém. Pegou a caneta e deixou sobre a mesa um bilhete. Saiu muito envergonhado do constrangimento que passara. Os holofotes insistiam em acompanhá-lo.
Passou pelo chefe nem o reconhecerá, a verdade é que não conseguia olhar pra cima. Cabisbaixo entrou no carro da polícia e foi para a delegacia prestar algumas declarações juntamente com os brutamontes que haviam deixado o corpo na porta da casa doutor.O chefe entrou na sala e leu o bilhete que o Legista Márcio havia deixado sobre a mesa:

“Cuide cada qual de seus mortos, que eu estou de férias!”
                                               
 Profª   Noemi Medeiros Bernardes




ESSE MORTO NÃO É DAQUI

            Aquela parecia ser simplesmente mais uma manhã de domingo na qual se acorda disposto para um dia de poucos compromissos – a não ser a festa e folia que os três netos faziam em suas frequentes visitas domingueiras - e, além disso, não seria marcado por grandes acontecimentos, no entanto não foi bem assim que os fatos se deram.

            Ela acordou e foi as suas costumeiras atividades: levantar, escovar os dentes, e fazer a higiene pessoal e enquanto as fazia, ouviu a campainha. Assustou-se, pois os netos não costumavam chegar tão cedo e muito menos tocar a campainha. Já a filha mais nova que estava morando em outra cidade, por motivos de trabalho, também não podia ser, pois tinha sua própria chave, a não ser que a tivesse esquecido, mas por que não telefonaria para avisar a visita? Talvez fosse seu sobrinho neto, que com bastante frequência vinha à casa da tia – agora ele morava naquela cidade para cursar a faculdade da qual vinha se preparando por muitos anos – mas não poderia ser, pois ele havia viajado para a casa de seus pais, tendo em vista que a sexta-feira anterior havia sido feriado. Restava pensar em alguma vizinha, mas seria pouco provável, observando que isso nunca acontecera antes; no entanto poderia acontecer agora. Decidiu que pararia suas reflexões e iria até a porta, já bastante ansiosa e curiosa a fim de descobrir quem poderia ser e o que estaria acontecendo. Ah! Mas não poderia ir como estava, de pijamas. Então precisou dirigir ao quarto para encontrar uma roupa adequada para se atender a campainha que não voltara a tocar. Feito isso foi até a porta.

            Ao tocar a maçaneta até pensou se não teria sido engano ou brincadeira de alguma outra criança, pois não havia tocado mais de uma vez (vale lembrar que as pessoas não têm muita paciência após tocarem a campainha, é como se o dono da casa tivesse de sair correndo ao ouvir um toque). Abriu, não viu ninguém... de pé...mas alguém deitado, ou melhor caído... no chão. Era ali que se encontrava alguém, um corpo desconhecido, bem em sua porta. Ela olhou para os lados e não avistou ninguém. Era comum a rua ficar deserta naquele bairro aos domingos.

            Sentiu as pernas tremendo, mesmo assim abaixou-se e tocou a face da pessoa a sua porta. Estava morta, confirmou - com tremor - procurando as batidas cardíacas no pescoço. Realmente já era um cadáver. Pensou em gritar, não resolveria. A única coisa que lhe veio em mente foi telefonar. Para quem? Várias possibilidades, mas o melhor seria a polícia. Trêmula fez a ligação com poucas informações.

            O corpo foi levado. Os netos chegaram. No início da manhã era o único assunto que tomava conta da casa e depois outros assuntos faziam parte da rotina da família. Não se sabe de quem era o corpo, nem o que acontecera e muito menos porque aquela casa fora escolhida para tal ocorrido. E poucos dias depois ninguém mais falava do que fato, pois aquele morto não pertencia àquela família.

                                                      Profª Sandra Cristina Aléssio

Não trabalho em casa!

Ele abriu os olhos, viu o relógio de cabeceira e percebera que estava atrasado, pois era véspera do dia dois de novembro, Dia dos Mortos. Sua profissão de coveiro exigia muito neste dia, afinal tinha que deixar tudo mais limpo e bonito do que os outros dias para os visitantes no cemitério.
Levantou-se, fez suas ebulições e enquanto tomava banho pensava: “Hoje vai ser um dia daqueles! Tenho que deixar tudo indicado e limpo para as pessoas não ficarem me azucrinando, perguntando onde fulano está?” e nisto ouviu a campainha da porta. Enxugou-se às pressas, saiu do banheiro curioso pensando: “Quem será a esta hora?”.
Destrancou a fechadura e abriu a porta. Levou um susto, pois vira um corpo caído na porta de sua casa. Deu uma olhada em volta e viu que não havia ninguém por perto.
- Ahhh, e agora?
Ficou pensativo olhando o cadáver até que resolveu tocá-lo para ver se estava realmente morto. Percebendo que já era um defunto resolveu ligar para a polícia e disse:
- Eu sou um coveiro e trabalho apenas no cemitério. Não trabalho com defuntos em casa, isto é, não trago serviço para casa.
A polícia foi lá resolveu o problema e ele pode ir para mais um dia de trabalho.
                                                Profª Mariana Cristina Blaia



Que o dia comece bem
            Segundona 5h55, bem baixinho toca o despertador de Silvia. Imediatamente aperta o botão. Faz suas orações como de costume. Pede por proteção, respeito, entendimento, felicidade e que o dia termine bem.
            Depois daquela espichada, levanta-se, abre a janela. É primavera, mas ainda está escuro -  horário brasileiro de verão. Tateando as paredes chega ao banheiro sem abrir os olhos. Na penumbra faz todo o ritual do dispertar. Todos os cremes, loções.
            Chega à cozinha. Liga o microondas e pronto, apita, toca estridente no silêncio. O que será? Assusta. Não identifica de onde vem o som. É a porta. Quem será?
            Pelo breeze-breeze da porta da frente vê um vulto de um homem claro, cabeça raspada, de costas sentado na calçada. Agora não está mais sentado, deitado, caído. Sussurra: “Dona, dona, me acode, por Deus!”
            Ela fica paralizada, pega as chaves e abre a porta. Do lado de fora do portão, vê que o homem nem mais respira. Apesar de muito cedo, começa a aglomeração. Alguém liga para o resgate.
            Silêncio. Uma vela. Fogo. Chama.
            Desconhecido, caído, morto, novo, mal tratado, cansado, sofrido, cansado. Ajuda não conseguiu pedir. Tarde.
            Corpo. Removido. Polícia pergunta. Respostas.
            Toca, toca, toca bem baixinho o despertador. Agora marca 6h00.
            Silvia aperta o botão. Pede proteção, respeito, entendimento e felicidade.
            Que o dia termine bem.
            Profª. Mônica da Costa Zanini Segnini



                                                                                                   



Nenhum comentário:

Postar um comentário